fico postando os emails em que eu falo mais da minha vida, porque senão não posto nada. não sei se é divertido ler a correspondência de outra pessoa, mas por hora é o que tenho disponível. um dia, sei lá, talvez eu volte a escrever escrituras.
ademais, não lhe tenho visto na faculdade. vejo sempre a maíra, aquela sua amiga bonita e sorridente; sempre nos cumprimentamos.
e o conselho de hoje: em rio de piranha, o jacaré nada de costas!
ainda está de amor? bom amor então. eu, por enquanto, estou jogada como um penico velho debaixo da cama.
eu já contei que o menino que mora comigo é lindo? pois é. quando eu vi pela primeira vez, pensei "ih, esse rider é havaiana..." mas não era não, era (é) hetero mas tinha (tem) namorada... o denis, ele e eu somos agora o mais novo grupo de música repetitiva eletroacústica de são paulo. já temos um anti-fã-clube, algumas músicas toscas, um videoclipe mais tosco ainda feito naquelas camerazinhas digitais que filmam tipo 30 segundos de cada vez, e coisas assim. mas estamos evoluindo, e estaríamos evoluindo mais se a universidade não atrapalhasse tanto nossos estudos.
mas ainda não nos apresentaremos, porque está tudo muito cru.
eu tardei e falhei, i'm sorry. em pleno fim de semestre, eu estou aqui na sala pró-aluno orkutando, blogando e rindo feliz dos textos dos meus amigos ao invés de estar lá na biblioteca me matando para entregar o último maravilhoso trabalho bobo que preciso na segunda feira.
isso não significa que eu deixei de te amar. ok, tenho demorado respostas e etc, mas eu tenho uma larga má vontade contra a internet e essas coisas, não é falta de amor, mas eu fico meio puta de ir até as pró-alunos e ficar horas nas filas. e quem não tem computador com internet fica à mercê dessa estrutura de merda. e eu odeio superlotações, e eu odeio muita gente, principalmente no mesmo lugar, e odeio também os estalidos de teclados alheios.
como está seu trabalho? eu queria muito ser professora universitária também, mas não me anima ler nos trabalhos a metade das bobagens que ouço nos corredores da faculdade, ou mesmo nos seminários que ando assistindo. mas se eu ficar aqui mais dez minutos, perco o semestre e não vou conseguir virar nem professorinha de colegial.
eu por enquanto estou desempregada. até agosto ainda rola, depois eu vou precisar fazer alguma coisa senão ficarei condenada à mais extrema pobreza. consegui a vaga no crusp, e continuidade pra bolsa-alimentação, mas isso não quer dizer nada. e quando todos descobrirem que eu passo o dia inteiro só estudando e me divertindo às custas do estado? tem gente que acha que o crusp é um luxo. eu acho que é mesmo.
já que não casei, comprei uma bicicleta. é glorioso ter bicicleta. as distancionas da usp viram distancinhas. e eu decidi que toda vez que me sentir chateada, ou entediada, ou triste, ou nervosa, ou estiver preocupada com algo, vou andar de bicicleta. sim, eu tenho andado de bicicleta todos os dias, às vezes até duas ou mais vezes por dia. não é fácil.
a banda vai bem, estamos fazendo a trilha sonora do filme de uma amiga. ficou pro lado mais eletrônico, porque foi na produtividade agressiva: quarta passada fiz duas músicas. que tipo de idiota eu sou, que em vez de estudar fica fazendo música no fruity loops? há tempos não ensaiamos, o darth-vader do final do semestre anda rondando os corredores. trabalhos feitos em uma noite e um dia, provas feitas umas em cima das outras, é assim que avaliam se a gente aprendeu um troço ou não. e se por acaso a gente passa, está valendo: eu quero mesmo terminar minha graduação com o mínimo de esforço e o máximo de aplique possível.
é isso aí, jovem. queremos saber quando v. sa. vem pra são paulo, para que possamos prender as donzelas em casa.
es kann nichts immer sein wie's früher einmal war,
was nicht heißen will es wär' jetzt aus.
wenn du denkst ich liebe dich nichts,
kiss me in the shadow of a doubt.
deine
jl,
with a star upon her shoulder
ps: e o evol é no momento o melhor album do sonic youth, pelo menos pra mim, e talvez também pra você, acho que você já me disse algo nesse sentido, star power over me, you and us.
que vida mais esquisita. a greve acabou e o relógio da praça ainda está parado; a biblioteca quer seus livros de volta, mas eu ainda não acabei o semestre. o bandejão voltou, e eu tenho achado a comida horrível. muitas coisas aconteceram mas as mais esquisitas eu vou contar aqui.
e aí, que eu fui fazer o maldito trabalho de sintaxe do português em grupo com pessoas do crusp, amigos, e etc etc, enfim: gente facilmente acessível na hora em que você precisa de ajuda.
pois não é que a merda do trabalho não ficou pronto a tempo e nós entregamos só o rascunho impresso no computador e as tabelas de dados?
o professor ficou puto! falou que o trabalho era um desrespeito, que o que estava escrito não tinha nada a ver, deu 5 sem louvor e nós conseguimos passar de ano.
o trabalho que eu mais estudei pra fazer na minha vida inteira, tirei 5!
eu fui uma das poucas que tirou 8,5 na prova! todo mundo foi mal!
eu fui uma das poucas que conseguiu entender a matéria que ele passou durante o semestre!
que merda! mas as coisas podiam ser piores. primeiro: ano que vem, ele vai pro exterior fazer um pós-doc. eu não vou conseguir vaga no mestrado ano que vem mesmo. dependendo de como andarem as coisas, pode ser que no outro ano algo dê certo. segundo: ele deixou eu entregar um trabalho completo e revisado e arrumado depois, mas sem valer nota, só pra ver como ficaria e avaliar o que poderia ter sido. parece coisa de puxa-saco, mas eu quero saber pelo menos se tinha algum sentido tudo aquilo que eu escrevi. e ele é uma pessoa de grandes contatos e saberes, pode me ajudar muito, ter a boa vontade dele é essencial.
mas nem tudo na vida acadêmica é uma bosta: eu já tinha desistido de continuar minha vida pro lado do alemão mesmo, já que não vou me formar falando alemão. eu tinha feito uma prova de linguística do alemão um dia desses aí, lembra? pois não é que eu tirei a nota mais alta da sala?
e ó, santos professores, por que lhes falta a humildade? a aluninha do ácido e house tirou 9.9 e não 10.0. mordam-se! rasguem-se! eu mereço porque eu estudei pra caralho! isso sem contar, que 9.9 + 8.0 (do trabalho em grupo)= 17,9, que dividido por 2, dá 8,7!
por que não fazer uma aluna feliz e arredondar a nota dela pra cima!? não, ninguém pensa em nós maloqueiros, mas não importa: sei que sou foda e estou feliz por mim.
parei de tomar o antidepressivo porque 1) tira o tesão completamente, e eu gosto demais de transar pra ficar indiferente a este fato e 2)comecei a acordar com ânsias de vômito pela manhã. enjôo matinal é geralmente sinal de gravidez, e a desconfiança de gravidez é uma coisa que me deprime. logo, o antidepressivo estava causando depressão, indo contra todas as promessas dele enquanto remédio salvador. os ansiolíticos também tiram o tesão, mas às vezes eu bem tomo unzinho pra dormir rápido, bem e pesado uma ou duas noites por semana. evidentemente, nas primeiras semanas sem o remédio, parei de comer e de dormir, mas tudo voltou ao normal depois de um tempo. não tive mais nenhuma crise nervosa. perdão, tive uma ou duas, mas foram insignificantes. uma delas durou um sábado inteiro, foi uma ligeira crise de sociopatia que teve fim ao final do dia.
voltei a ficar com o douglas. te falei isso? brigar com ele é uma merda. prefiro mil vezes quando nós estamos amigos. ele tem sido legal, mas não posso confiar sempre no bom humor dele, como ele já aprendeu que não pode confiar no meu também, porque eu sou louca.
tenho tido algumas crises de sociopatia, mas ela é leve, controlável, passa quando eu respiro fundo, não tenho querido conversar com ninguém. gosto de ir aos lugares e andar de discman observando as cenas se desenrolando, alheia às pessoas, só olhando o jeito que elas se movimentam no espaço. ponho os fones nos ouvidos e é como se eu desse uma trilha sonora pras imagens que vão passando em frente a meus olhos. ninguém fala comigo, porque eu estou de discman e as pessoas não falam com pessoas de discman porque sabem que não serão ouvidas e os fones já pressupõem um "não fale comigo, já escolhi minha trilha sonora", grande invenção esta. e aqueles que tocam mp3, então? custam baratíssimo (relativamente) no promocenter da augusta, e proporcionam horas e horas de diversão garantida, longe das interações verbais com pessoas indesejáveis (que nem sempre são más, mas naquele momento, indesejáveis), que infelizmente são maior em número que as desejáveis, tão poucas as eleitas.
mas às vezes eu também desencano, faço a linha amiga e interajo horrores, falo com todo mundo e sempre procuro sorrir para as pessoas. as pessoas não gostam muito de mim geralmente, sou meio malditinha. não porque queira, mas eu antes achava que todo mundo sabia que a gente tem dias e dias. mas as pessoas confundem tudo isso com gostar delas, ou "ser educado é fundamental". então pra mostrar que sou educada eu tenho que falar oi sempre, parar e perguntar da vida, estabelecer a função-fática toda hora, gente! como são carentes as pessoas. então adotei o sorriso, que é bonito, funciona, é afetivo, eu gosto de sorrir pras pessoas porque às vezes minhas palavras podem ser ferinas sem intenção, é eu que estou errada, se preferir assim. então, sorriso, é bom, bom astral e funciona como um "falar pra mim é difícil, mas fica aí minha mensagem de olá, eu te reconheci, falaremos outro dia quando houver oportunidade e vontade de ambas as partes".
quem vê pensa que eu odeio o mundo, não, não odeio não. mas existem pessoas com quem gosto muito de conversar, e não são poucas. só são poucas se forem colocadas em comparação numérica com o resto da humanidade - o problema é que o resto da humanidade é gente pra dedéu e ocupa espaço pra caralho no mundo.
falei tudo isso sobre interação com as pessoas porque as pessoas se incomodam mutuamente e muitas vezes sem perceber. meu vizinho de computador aqui no cce está com um cheiro horroroso de amaciante no cabelo, e isso me incomoda tão profundamente quase a ponto de mudar de lugar. e você acha que ele se toca? deve estar achando o cheiro do cabelo dele uma delícia.
tenho agora três plantas no meu quarto: uma drósera, que é uma planta carnívora. ela não come carne, só uns mosquitinhos, deveria ser planta mosquitinhívora. é bem louco, eles grudam nas folhas dela, que têm uns filamentozinhos vermelhos, e morrem a pior das mortes: dissolvidos no ácido digestor que têm os filamentozinhos. tenho também uma bonita violeta azulada, e uma outra mais pro rosa. tem também outras plantas lá fora, cânfora, alfazema, poejo, hortelã, orégano, estamos montando um pequeno apart-green-garden. eu amo plantas: são cheirosas, bonitas, estão vivas e acima de tudo, não incomodam ninguém.
preciso ficar por aqui. temos que marcar uma rainha do butantã ou um bh semana que vem, quando tudo voltar ao normal.
você não me manda email definitivamente, nem carta nem nada. okay, estou disposta a entender tudo, afinal de contas eu te amo e você é minha eterna namorada. encontrei o rafa uma vez, você não deixou o telefone da carla, e logo eu não pude acuendá-la como o combinado.
tudo vai bem, com exceção da merda da faculdade por correspondência que estamos fazendo com a greve. estou ouvindo uma música e pensando em você, the actress, delgados. eu gravei pra você naquela fita?
você não vai acreditar no que eu fiz.
mas eu pedi demissão. e fui no psiquiatra logo depois.
primeiro, eu faltei em todas as aulas da semana dizendo que estava com caganeira. depois, liguei lá dizendo que tinha ido no psiquiatra. o mesmo bla bla bla de sempre, transtorno bipolar, altos e baixos, crises nervosas. na quinta feira que pedi demissão, estava em plena crise nervosa. torcia as mãos e chorava, por mim, pela minha incapacidade de me controlar, pelo mundo cruel, sei lá. perda de peso? quando foi a última vez que você comeu? você comeu duas bolachas ontem e acha que isso te sustenta hoje, ontem e amanhã? parabéns, o nome disso é anorexia nervosa, quando você simplesmente desencana de comer porque não acha mais tão gostoso, porque você esquece, porque enfim: vocÊ está deprimida e um monte de coisas começam a refletir na sua saúde, por exemplo, gastrite, dor nas costas, dor de cabeça todo dia, insônia. fiquei tão desesperada com essa notícia da psiquiatra que assim que saí de lá fui direto pra um supermercado comprar coisas para comer, e comprei um monte de bobagens facilmente acessíveis e deixei à mão no meu quarto, para que a hora que eu lembrasse, pudesse comer. tudo bem, isso não é o máximo da alimentação saudável, mas eu pelo menos estou comendo. menos mal.
a boa notícia é que estou livre da essential, pelo menos por enquanto. fiz uma prova no cursinho da poli para virar plantonista mas ainda não tive a resposta.
a outra notícia mais ou menos boa é que voltei a tomar bromazepan. é bom porque eu durmo como um cadáver, direto, sem acordar, e é ruim porque sim, vicia. vicia porque dormir é bom e virar a noite fritando é uma bela merda. e estou tomando um antidepressivo também, que está fazendo mais bem que mal, pelo menos por enquanto.
quando o douglas e eu terminamos há algumas semanas, eu estava à beira de um ataque de nervos. isso ele me disse ontem quando nos vimos, e disse também que eu estava muito calma. ele está se sentindo ligeiramente mal por achar que é ele quem me faz mal e sem ele eu fico muito melhor. não acredito nisto, mas acho que há todo um conjunto de fatores, e o principal deles era a essential.
estou mesmo muito calma. tanto tempo passei desequilibrada, que quando estou calma não consigo saber se sou eu mesma ou se é outro eu, dopado, que está sorrindo ohne sorge sei ohne sorge por aí...
pelo jeito eu não vou para cordisburgo porque o denis e eu nem nos mexemos no sentido de escrever para as pessoas de lá para arranjar um lugar para ficarmos. dinheiro é coisa que nem se fala, então capaz de eu estar por aqui quando você chegar daí.
aconteceram coisas; conheci e beijei outras pessoas. ainda sinto muita falta do d., eu não sei se ele liga para isso. tenho saudades de uma menina que está em limeira, tenho visto um garotinho lindo por aqui que fofamente tenta me impressionar. tenho saudades da minha mãe. quero acabar esse semestre inacabável. quero passar um dia inteiro beijando na boca deitada na cama. o prozac me tira a vontade de fazer sexo, it's all true. uma pessoa que toma 80g de fluoxetina já me disse que tira nada, que é tudo da adaptação, mas essa adaptação já tá demorando demais.
e quanto ao manu, eu ia ver. eu estava lá antes do show, mas perdi a paciência e fiquei menstruada ao mesmo tempo - se ele vier para o fórum social mundial, vou ver. se não vier, paciência. okay, gosto do manu chao e tudo, mas achei um desaforo esperar duas horas por um show que começaria às quatro e ninguém dar nenhuma satisfação. quem ficou garante que a espera valeu a pena mas eu particularmente achei um desrespeito, até mais, manu. comemos um maravilhoso fondue de chocolate aditivado e passamos o dia inteiro viajando, rindo, felizes.
encontrei o garotinho lindo e passamos bem pouco tempo juntos; somos absolutamente diferentes, ele é um fofo, modelete-heroína-chique, alto, louro, espadaúdo. e eu, uma pedra: só provas trabalhos textos literaturas bibliografias. gostamos das mesmas coisas? isso é suficiente? não sei o que está havendo, é cedo para saber e eu não estou no fundo muito inspirada para que as coisas tomem proporções grandes.
será que virei uma chata? será que eu só penso em provas trabalhos textos literaturas bibliografias? acho que não. eu penso sim, muito que eu tenho que fazer tudo isso qualquer hora destas, mas por exemplo, agora, eu cheguei aqui no cce sem sequer trazer toda a bibliografia que necessito para digitar o trabalho. desisti de uma matéria ontem por causa do show e não vi o show. eu não vou conseguir ler tudo para fazer a prova da matéria, it's okay, tomorrow i'll be perfect. eu positivamente estou enlouquecendo, mas espero cumprir pelo menos 14 créditos.
era tudo. quero te ver para te contar o novo ciclo de piadas do maradona pessoalmente; todos estamos bem por aqui, eglantinne voltou ao lar, tony anda cada vez mais tony, andré sempre sorrindo, steve acredita cada vez mais na força do destino, e eu, uma pedra.
the thing is: you all decide to take me away from your lives just because you don't keep up with me. i change level. you? i don't know. sorry if i don't care, but if you're friends with me just in consideration of someone else, well... what can i expect from you.
what kind of people are you? i've changed.
i feel sometimes we've never been friends... and i regret the whole time i wasted worrying about you.
evidentemente melhor que eu, não ando me divertindo nem um pouco por estas paragens. sinto tanta falta sua que às vezes sequer tenho vontade de conversar com outras pessoas só de saber que elas não são você.
os funcionários da faculdade vão entrar em greve. dentro em breve não teremos circular nem bandejão. infelizmente ainda teremos porteiros. os moradores do crusp deveriam simplesmente fazer um protesto contra a DIVA (divisão de investigação da vida alheia) na porta da coordenadoria de assistência social, mas também eles acham de fundamental importância o cuidar da vida dos outros, e tenho tido a minha tão cuidada que me sinto em algum tipo de prisão, em regime semi-aberto, liberdade vigiada.
o seu manoel está ótimo, mas infelizmente não mandou lembranças. não acho que se lembre sequer do próprio nome completo, quanto mais de uma mocinha com quem ele implicava por querer me chamar. tão ocupadas são as pessoas com a salvação da alma alheia. céu? inferno? inferno é ficar aqui presa,
"ad hoc ad loc and qui pro quo, so little time, so much to know".
a pior prisão é a intelectual. a montanha mágica, fausto I e suas "noites de walpúrgis"; a gramaticalização e o belo desenvolvimento irregular e incerto dos verbos ter e haver, só como o caos da língua consegue ser, tão ilógico e organizado; a semântica e a pragmática da língua alemã que falo tão parcamente; a fons puro pura defluit acqua, lupum lupus cognoscit et fur furem; heinrich böll e seus continhos irônicos sobre o pós guerra; a lírica moderna alemã e seus principais representantes. bertold brecht diz porque os tempos são difíceis para a lírica: nada há para se rimar, o seio da donzela é tão quente como outrora, mas só consigo pensar na velha senhora trabalhadora, reconstruindo meu país arrasado pela guerra e pela má vontade, caras sisudas, a literatura do pós guerra é deprimente. ainda tem as matérias em que só apareço uma vez por quinzena e nem faço idéia do que acontece nelas. a greve será um alívio: lerei tudo que tenho vontade a respeito de tudo que quiser. tenho disponíveis diversos livros sobre o mito: vou estudá-los nestas férias forçadas. e hoje haverá a grande limpa na biblioteca durante o dia: estamos todos nos preparando.
estou pensando nas cartas sobre a educação estética do schiller; talvez o fausto II; a dialética do esclarecimento também é um bom assunto pra gente se jogar. relerei a montanha mágica: se arranjar por aí alguma edição portuguesa, não deixe de comprar. as edições brasileiras não têm traduções para o diálogo em francês na noite de walpúrgis.
tens usado drogas por aí, minha bela? por aqui as coisas estão na mesma. tomei um ácido não numa segunda feira faz dois anos, mas num domingo. foi como a música: eu me lembro, estava sem você, e os jasmins brilhavam como círios. queria que você tivesse sentido 10% da felicidade que eu senti, foi uma coisa linda. eu estava tão triste por conta de várias coisas e pessoas, e fui ao bh, onde vi a rachel e todas as outras, e chamei você de um telefone mudo de dentro de um cartaz da aerofloss triturando a noite num moinho...
nada é pior que a má vontade, minha querida luciana. é minha pior inimiga: falo da minha e da dos outros. emagreci mais um pouquinho, mas tenho comido fervorosamente três vezes por dia quando lembro e não tenho dormido bem como de costume. odeio minhas aulas, não quero mais trabalhar. mas tento pensar no méxico, party hard, felicidade emergente ao alcance da minha mão.
ainda não abri meu e-mail, portanto não me cobre respostas.
espero ter sua direção em breve. quero escrever cartas de verdade. não acredito em e-mail.
espero que você esteja se divertindo muito, espero que você esteja se dando muito bem por aí, e espero sobretudo que as coisas também dêem certo para mim para que eu também possa avoar daqui.
querida nega,
eu prometi que escreveria e estou escrevendo antes que o mundo fique estranho demais para a minha linguagem descrever.
você sabe que a l. foi pra portugal e quem perdeu o local fui eu, que fiquei perdida aí pelos cantos, sem entender exatamente o que mudou na minha vidinha porque fiquei dando uma de nem-aí o tempo todo. o que esperar de um perdido? será que ele se drogará ou que se apaixonará pelo(a) primeiro(a) idiota que cruzar seu caminho? vai tocar piano? escrever histórias?
com fé em deus e a colaboração da polícia, passei momentos de êstase no skol beats(trocadilho infame). era o final do set do marky quando eu dei uma estressada que não precisava, por conta de uma agressividade não justificada da parte dela. infelizmente a última imagem que tenho é dela chorando, não lembro do último beijo nem do último abraço, não rasguei nenhuma carta contundente de adeus porque não recebi nenhuma, mais uma vez era até breve, mas não tão breve, certo?
ah, nega, a leandra, o maior fantasma do meu passado, disse que voltaria! a argentina é perto, mas tem um oceano entre eu e a l. e a impressão que eu tenho é que a leandra voltou sob nova forma para me ensinar novas coisas. todos dizem que estou fazendo tempestade em copo d'água, daqui a pouco ela está por aí de novo, mas PORRA! há dez anos aconteceu a MESMÍSSIMA COISA, na MESMÍSSIMA ÉPOCA do ano, com uma pessoa que só não era tão importante quanto ela porque eu era nova demais para dar importância às coisas.
criei a teoria de que o mundo só está a merda que está por superpopulação. eu poderia passar toda esta carta falando dos males da superpopulação mas vou falar de um bem específico: por existirem seis bilhões de pessoas no mundo, você acaba se esquecendo das pessoas porque sabe que quando quiser, pode encontrar novas para substituí-las. eu sei que deveria me modernizar, mas não consigo achar bem louco você dizer: "ah, fulaninho está chateado comigo, então foda-se, quer dizer, eu tenho outros amigos" ou "tudo bem que fulano não quer mais ficar comigo: o mundo tem seis bilhões de pessoas e eu não transei nem com a metade ainda". essa facilidade de arranjar amigos nos torna frios, será? menos dispostos a amar?
ela precisava ir e foi. estou feliz por ela ter concretizado algo que queria muito, muito mesmo. viajar torna sua vida maior. eu queria estar viajando também. ela insistiu para que eu também fosse, mas meu caminho é diferente. não sei como será, como as coisas vão acontecer, mas não consigo tacar alguém lá no lugar dela na minha vida, e ao mesmo tempo que estou feliz por não ser igual à maioria que substitui amigos, já chorei tanto e tanto por sentir tanta falta de coisinhas que, quando estávamos juntas, passavam batidas.
nunca ninguém me disse que gostava do jeito que minhas mãos se mexiam quando eu estava escrevendo. uma grande bobagem, como tudo no fundo é um conjunto universo de bobagens.
o ruim é que eu não estou tendo paciência com os outros. as pessoas não sabem como lidar comigo, devo estar insuportável. digo e desdigo, desapareço e reapareço, finjo que não estou nem aí até a hora que acredito que não estou mesmo, e ... o que vai ficar?